Cultura

A Boca Que Tudo Come Tem Fome no Festival de Curitiba 2026

Depois de colocar em discussão o sistema jurídico brasileiro – com “(In)justiça”, de 2019 – e os reflexos da detenção masculina na vida de mulheres – com “Cárcere ou Por que as Mulheres Viram Búfalos” –, a Companhia de Teatro Heliópolis fecha a sua trilogia sobre o encarceramento penal com “A Boca Que Tudo Come Tem Fome (do Cárcere às Ruas)”, que trata das dificuldades de readaptação à vida em sociedade após a saída da prisão.

Para isso, fez um extenso trabalho de campo, entrevistando mais de dez egressos do sistema penitenciário, e cujas histórias agora compõem a dramaturgia assinada por Dione Carlos. A direção é de Miguel Rocha.

O espetáculo faz parte da programação da Mostra Lucia Camargo da 34ª edição do Festival de Curitiba, com sessões nos dias 02 e 03 de abril, às 18h30, no Teatro José Maria Santos.

No palco, a narrativa é estruturada a partir de seis solos, de três homens e três mulheres, interpretados por Cristiano Belarmino, Dalma Régia, Davi Guimarães, Jucimara Canteiro, Klavy Costa e Walmir Bess. Eles permanecem durante toda a encenação com os pés metidos em uma lâmina de água.

Isso apareceu em quase todas as histórias que a gente ouviu, e começa com a noite de ansiedade e angústia que eles vivem depois de receber a notificação de soltura. Depois, a sensação da saída, um conjunto de sentimentos meio inexplicável, mas que todos traduziram como se fosse um desaguar”, comenta Miguel Rocha.

No cárcere, eles vivem também um aprisionamento da mente, precisam cuidar o tempo todo do que dizem, como uma estratégia de sobrevivência mesmo. Ali, vivem situações complexas de violência e morte, coisas mal resolvidas, são regidos por facções. E de repente isso não existe mais.

Na peça, apenas dois personagens espelham o que poderíamos chamar de “criminosos profissionais”. O restante acabou na cadeia por vicissitudes. É de Fábio, jovem usuário de drogas enquadrado como traficante, e que após cumprir pena fundou uma ONG para lutar pelos direitos dos encarcerados.

Ou de Isabel, presa por oito anos também pelo crime de tráfico, e que dentro do cárcere encontrou conforto na igreja evangélica. “Nas prisões, os religiosos recebem respeito e garantia de integridade. Então, muitas vezes a conversão é usada apenas como pretexto, mas não foi esse o caso”, diz Miguel Rocha.

Ao ser posta em liberdade, no entanto, ela ficou oito horas na porta da prisão, sem saber para onde ir, e por fim recorreu a uma ex-colega de cela.

Essas pessoas viveram experiências muito fortes. Ninguém vai pro cárcere do nada. Tudo é um processo”, constata Miguel Rocha. “Quando saem, elas encontram dificuldade para fazer coisas simples, como encontrar trabalho ou tirar novamente os documentos. E coisas que muitas vezes o resto das pessoas nem imagina.”

O ex-presos brasileiros, por exemplo, são obrigados a pagar uma multa, cujo valor varia dependendo do tempo que passaram enclausurados. A pena está prevista no artigo 51 do Código Penal desde 1940, exceto para os casos de crimes contra a vida ou sexuais. Desde 2019, no entanto, o não pagamento impede a extinção da pena e faz com que o ex-presidiário permaneça com os direitos políticos suspensos e sujeito à penhora de bens.

E tem ainda o lugar emocional, o julgamento da família, da sociedade. Quem consegue se restabelecer aqui fora, com trabalho e vida digna, merece nosso respeito. É uma luta, um caminho muito difícil”, diz.

A Mostra Lucia Camargo é apresentada por Petrobras, Sanepar e Governo do Estado do Paraná, Prefeitura de Curitiba e Fundação Cultural de Curitiba, com patrocínio de EBANX, Viaje Paraná e Copel, com realização do Ministério da Cultura e Governo Federal – Do lado do povo brasileiro. Acompanhe todas as novidades e informações pelo site do Festival de Curitiba www.festivaldecuritiba.com.br, pelas redes sociais disponíveis no Facebook @fest.curitiba, pelo Instagram @festivaldecuritiba e pelo Twitter @Fest_curitiba.


Ficha Técnica:
Concepção Geral e Encenação: Miguel Rocha
Dramaturgia: Dione Carlos
Elenco: Cristiano Belarmino, Dalma Régia, Davi Guimarães, Jucimara Canteiro, Klavy Costa e Walmir Bess
Música Original e Direção Musical: Alisson Amador
Música em Cena: Alisson Amador, Amanda Abá, Denise Oliveira e Nicoli Martins
Cenografia: Telumi Hellen
Assistência de Cenografia: Nicole Kouts
Figurino: Samara Costa
Assistência de Figurino: Clara Njambela
Provocação Vocal: Alisson Amador, Edileuza Ribeiro e Isabel Setti
Direção de Movimento: Erika Moura e Miguel Rocha
Provocação Corporal: Erika Moura
Oficinas de Dança: Ana Flor de Carvalho, Diogo Granato, Janette Santiago e Marina Caron
Criações Coreográficas: O coletivo, Erika Moura, Diogo Granato e Janette Santiago
Provocação Teórico Cênica e Mediadora do Ciclo de Debates: Maria Fernanda Vomero
Estudos em Teatro Épico, Performance e Dança: Alexandre Mate, Murilo Gaulês e Sayonara Pereira
Iluminação: Miguel Rocha e Toninho Rodrigues
Operação de Luz: Lucas Felipe
Operação de Som: Lucas Bressanin
Cenotecnia: César Renzi e Wanderley Silva
Contrarregragem: Antônio Portela
Convidados do Ciclo de Debates: Fábio Pereira, Dexter, Tempestade e Vicente Concílio
Comentadores: Bruno Paes Manso e Salloma Salomão
Assessoria de imprensa: Eliane Verbena
Coordenação de Comunicação: Luiz Fernando Ferreira
Assistência de Comunicação: João Teodoro Junior
Fotografia: José de Holanda, Duda Viana e Rick Barneschi
Registros do Processo de Criação: João Guimarães
Design Gráfico: Rick Barneschi
Edição de Textos para o Programa da Peça: Maria Fernanda Vomero
Direção de Produção: Dalma Régia
Produção Executiva: Álex Mendes e Miguel Rocha
Idealização: Companhia de Teatro Heliópolis

Serviço:
34º Festival de Curitiba
Data: 30 de março a 12 de abril
Valores: de R$ 0 a R$ 85 (mais taxas administrativas)
Ingressos: www.festivaldecuritiba.com.br e na bilheteria física exclusiva no Shopping Mueller (Av. Cândido de Abreu, 127 – Piso L3, Centro Cívico. De segunda a sábado, das 10h às 22h; domingos e feriados, das 14h às 20h).

A Boca Que Tudo Como Tem Fome – Do Cárcere às Ruas
Mostra Lucia Camargo
Data: 2 e 3 de abril
Horário: 18h30
Local: Teatro José Maria Santos (Rua Treze de Maio, 655 – São Francisco)
Classificação: 14 anos
Gênero: Experimental
Duração: 120 minutos

Redação JBA Notícias

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