Canteiros de obras sustentáveis e “lixo zero” já são realidade na construção civil paranaense

Influenciada pela “pressão verde” dos consumidores da capital ecológica, que consideram a sustentabilidade na decisão de compra do imóvel, a construção civil tem priorizado a redução do impacto ambiental dos novos empreendimentos de Curitiba (PR). A transformação tem efeito não apenas no produto final, mas também na etapa de construção.

Responsável por 60% dos resíduos sólidos urbanos e mais de 30% do consumo energético e emissões globais, segundo relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, o setor está utilizando a inovação em prol do ideal do “canteiro de obras verde”. A mudança passa pela meta do “lixo zero”, economia de recursos naturais e preocupação com o entorno urbano.

Na vanguarda da incorporação que tem a sustentabilidade como preceito dos projetos – mesmo antes da chegada da onda de certificações verdes – a AGL recentemente conseguiu zerar o envio das sobras das obras para aterros. Além de adotar medidas para redução do desperdício e geração de entulhos, a incorporadora apostou em um sistema que combina separação na origem, rastreabilidade e parcerias com operadores especializados.

A experiência está em andamento, nas construções dos multirresidenciais Moní, Kóra e Mytá – os últimos dois em parceria com a incorporadora ALTMA. A principal mudança está na maneira como os materiais são tratados ao longo das obras. Em vez de serem descartados de forma indistinta, os resíduos passam a ser separados por tipo e direcionados para diferentes fluxos. “Hoje conseguimos acompanhar todo o ciclo, desde a geração até a destinação final. Isso traz mais controle e reduz o risco de descarte inadequado”, conta a engenheira de Planejamento da AGL, Liz Magnaguagno.

Ela explica que, na prática, as sobras das obras são encaminhadas para cooperativas de reciclagem e empresas especializadas, que processam os materiais descartados e transformam entulho em agregados reutilizáveis, como areia e brita. Já os materiais que não podem ser reaproveitados seguem para coprocessamento e são utilizados como insumo energético em atividades industriais.

A etapa de transporte é um dos pontos mais sensíveis da operação. É nela que se define, de fato, o destino dos resíduos. Segundo Janaína Pissinati, gerente comercial da Forte Coleta de Resíduos – prestadora de serviços para a AGL – a principal diferença entre obras com gestão estruturada e obras convencionais está no nível de controle. “Quando existe um modelo organizado, o resíduo deixa de ser tratado como descarte e passa a fazer parte do processo produtivo. Há padronização na coleta, documentação e rastreamento. Em obras convencionais, é comum a mistura de materiais e a ausência de controle sobre o destino final”, detalha.

Nos empreendimentos da AGL, os resíduos são separados ainda no canteiro, direcionados para caçambas específicas e coletados por um único operador. O processo é acompanhado por documentos como o Manifesto de Transporte de Resíduos (MTR), que permite rastrear cada carga até o destino. Ainda assim, o controle não se resume à documentação. “A garantia do destino correto depende também de auditorias e verificação dos locais de descarte”, completa Janaína.

Mudança passa mais por gestão do que por tecnologia

Apesar do avanço de ferramentas e certificações, especialistas afirmam que o principal desafio da sustentabilidade no canteiro de obras não está no acesso a novas tecnologias. “Mais de 60% dos resíduos sólidos urbanos vêm da construção civil, e a maior parte ainda é destinada a aterros. Ao mesmo tempo, já existem obras que conseguem reciclar praticamente todo o material gerado. Isso mostra que o problema não é falta de solução, mas de gestão”, afirma Iago de Oliveira, consultor de sustentabilidade da Bloco Base, empresa parceira da AGL.

Segundo ele, a organização do canteiro e a capacitação das equipes são fatores determinantes. “Quem executa a obra são os trabalhadores. Quando eles entendem o processo, a tendência é que o desperdício diminua.”

Certificações aumentam pressão por controle

A adoção de práticas mais estruturadas nos canteiros de obras também tem sido impulsionada por certificações ambientais, os “selos verdes” da construção civil, concedidos por entidades como a GBC Brasil (Green Building Council). Esses sistemas avaliam, entre outros pontos, a gestão de resíduos, a qualidade do ar e a prevenção de impactos em corpos hídricos. O acompanhamento ocorre ao longo da obra, com auditorias periódicas e registro das práticas adotadas.

Além da gestão de Resíduos da Construção Civil (RCC), a redução de emissões de CO₂ passa por decisões operacionais, antes mesmo do início das obras. A escolha de materiais de baixo carbono, o uso de metodologia colaborativa de modelagem 3D (plataforma BIM) – que reduz erros e desperdício –, e a escolha de fornecedores locais contribuem. “Trabalhamos com cerca de 80% de fornecedores locais. Além de impulsionar a economia regional, isso encurta distâncias, diminuindo as emissões durante o transporte dos materiais”, acrescenta a engenheira de Planejamento da incorporadora, que também faz o controle do consumo energético e reúso de água da chuva nas obras.

Para completar, a relação das obras com a vizinhança também passou a ser considerada. Medidas como umidificação de áreas para reduzir poeira, lavagem de rodas de veículos e definição de horários para atividades mais ruidosas fazem parte da rotina dos canteiros. A ideia é reduzir interferências no entorno e melhorar a convivência durante o período de construção. “É no canteiro de obras, ambiente muitas vezes invisível ao consumidor final, que decisões cotidianas passam a determinar o desempenho ambiental das construções. Quando você melhora a gestão do canteiro, faz escolhas mais inteligentes. No fim, isso não é apenas uma agenda ambiental: é uma agenda de gestão e de futuro para a construção civil”, avalia o sócio e diretor-executivo da AGL, engenheiro Luiz Antoniutti.

Redação JBA Notícias

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