Por iniciativa da vereadora Giorgia Prates – Mandata Preta, os 50 anos do movimento hip-hop em Curitiba foram homenageados na Câmara. (Foto: Rodrigo Fonseca/CMC)
Durante a Tribuna Livre desta quarta-feira (6), a Câmara Municipal de Curitiba recebeu Samuel Costa, o Samuka MC, presidente da Associação dos Rimadores e membro do Conselho Municipal de Política Étnico-Racial de Curitiba (Comper) e a rapper Lua D’Avila, integrante do grupo J.A.C., poeta que tem se destacado no atual cenário musical da capital paranaense. Eles discorreram sobre o tema: “50 anos do movimento hip-hop no Brasil”. A Tribuna Livre foi presidida pelo vereador Tito Zeglin (PDT), presidente da Câmara Municipal de Curitiba e teve a iniciativa da vereadora Giorgia Prates – Mandata Preta (PT).
A Tribuna Livre é um espaço dentro da sessão plenária das quartas-feiras, para que convidados dos vereadores se pronunciem sobre temas de interesse da coletividade.
Assista à Tribuna Livre no canal da Câmara no YouTube.
Giorgia Prates – Mandata Preta iniciou sua fala lembrando que o movimento hip-hop nasceu nas ruas do Bronx, em Nova Iorque. “Surge como uma voz das comunidades marginalizadas e logo se espalha pelo mundo. Em Curitiba, uma cidade que se forja como branca e europeia, o hip-hop se tornou um símbolo de existência e de resistência da comunidade negra e das periferias”, afirmou a vereadora. Para ela, falar do hip-hop na Câmara é fundamental, haja vista que há algum tempo houve divergências em torno da própria existência do movimento. “É muito importante a gente ter conhecimento, saber do que está falando e nada melhor que dar voz às pessoas que ocupam esses espaços. Aprender com eles para que a gente não cometa mais erros e tenha que conviver com falas racistas”, disse Giorgia.
Ela explicou que, em razão da importância do hip-hop para a comunidade Negra, convidou Samuka MC, poeta, músico, rapper e ativista negro. Samuka o Comper e representa o movimento negro de Curitiba, além de presidir a Associação de Rimadores, entidade que, desde a sua fundação, em 2018, promove ações de assistência social em comunidades carentes. Samuka MC combate o feminicídio, o racismo e o uso de drogas em suas palestras nas escolas. Outra presença trazida por Giorgia Prates foi a rapper Lua D’Avila. De acordo com a vereadora, Lua é uma voz poderosa que aborda questões complexas como a maternidade-solo, a mulher preta e o racismo estrutural em suas composições. Lua também faz parte do grupo J.A.C., ao lado do Mano Cappu, sendo ambos destaques no atual cenário musical da cidade.
Samuka MC declarou que veio à Câmara para falar do hip-hop. “Um movimento que foi atacado dentro dessa Casa. Usaram os próprios versos do hip-hop para atacar o movimento”, afirmou ele. Samuca lembrou que esteve na Câmara há alguns anos, quando a Associação dos Rimadores passou a ser reconhecida com o título de Utilidade Pública, por iniciativa do vereador Jornalista Márcio Barros (PSD) (lei municipal 15.878/2021). “Sempre nos dispusemos a trabalhar em parceria com a Prefeitura e, mesmo assim, fomos atacados. E com a utilização de versos que quem conhece sabe que se referem às drogas e à violência, pois esta é a realidade das comunidades”, disse o músico. Ele disse vir com orgulho à Câmara representando a comunidade negra, que é formada por homens, mulheres, pais e mães.
“Tenho 43 anos e ninguém tá aqui de brincadeira”, afirmou Samuka MC, lembrando de um verso do rapper Black Alien: “Não vou queimar a casa, para me livrar do rato”. Ele informou que buscou contato com o agente Celso, da Guarda Municipal, sob indicação do vereador Márcio Barros, mas não obteve retorno. “Quando o René Randal foi atacado numa praça de forma hostil pela polícia, eu me questionei: que cultura é essa que ofende tanto e faz com que a polícia atue contra a gente?”, indagou Samuka. Ele comentou que também representa o Movimento Black Panther, desejando a paz. “Os Panteras Negras têm um lema segundo o qual, ‘a violência, só se for preciso’. Não quero trazer a violência. Prego o amor e prego a paz nas minhas letras”, declarou o rapper. Em seguida, Samuka pediu para que a equipe técnica da Câmara exibisse um vídeo em que uma menina conta como o hip-hop a ensinou a superar os preconceitos raciais que enfrentava.
Samuka reforçou a relevância do rap e de rappers curitibanos como Marinho, Randal e o pessoal do grafite. “Se não fosse por eles, a violência seria bem maior na cidade. O hip-hop afasta as crianças da ‘biqueira’ (ponto de tráfico) e eleva a autoestima dos marginalizados. Citei esses rappers porque são os que estão comigo, mas há muito mais gente por aí que faz isso acontecer. Então, hoje, estou aqui pra reconstruir o que tentaram destruir nessa Casa”, disse o presidente da Associação dos Rimadores. Samuka comentou que quando veio à tona a fala anti-hip-hop manifestada na CMC, orientou seus amigos e seguidores do movimento a não repostar o comentário pejorativo. “Disse pra todos não respostarem, pra não dar importância a essa pessoa que deseja se projetar usando nosso movimento. E só pra lembrar, no momento, o hip-hop é a música mais ouvida no mundo. Não tem samba em todos os países, mas tem hip-hop em todos os países”, afirmou o rapper. Ele destacou que Curitiba foi construída por negros num estilo europeu.
Samuka mostrou imagens de atividades promovidas pela Associação de Rimadores em escolas, na batalha de rappers que era promovida no Parque Bacacheri (evento que também sofreu hostilidades), o Natal Solidário, mutirões do bem, trabalho artístico desenvolvido como estímulo do empoderamento feminino na “Escada do Sucesso”, divulgação da arte do grafite (graffiti), palestra sobre políticas públicas a respeito de drogas, feminicídio e outros temas que atingem as comunidades. Ele também enfatizou a divulgação nas escolas da pessoa e dos atos do líder negro Martin Luther King e lembrou da participação no livro Narrativas Afro-Curitibanas, publicação de iniciativa da Assessoria de Promoção da Igualdade Étnico-Racial, órgão ligado à Prefeitura.
Samuka ainda falou sobre a festa dos 50 anos do hip-hop realizada no saguão do edifício Itália, espaço em que dançarinos de break e hip-hop realizam performances desde a inauguração do prédio, nos anos 1980. “Outra atividade que merece destaque é o Slam da Zumbi, evento no qual se promove a educação antirracista em disputas de poesia falada. O evento é promovido em parceria com o Instituto Afro Brasil do Paraná e tem apoio da Prefeitura de Curitiba”, disse.
Samuka reiterou que só um vereador incomodou com sua fala. Ele ressaltou que sabe o respeito que os demais vereadores têm em relação à comunidade negra e ao movimento hip-hop. “Foi uma fala que atingiu diretamente minha pessoa, mas eu não sou violento. A Associação dos Rimadores, que eu represento, está crescendo, o movimento negro é muito grande. Vocês já viram aquilo que eu posso fazer pelas comunidades e, daqui em diante, eu vou ver o que vocês podem fazer por mim, não pela minha pessoa, mas pelo movimento hip-hop e pela cidade de Curitiba”.
“A população periférica existe porque foi colocada à míngua após a Abolição da Escravatura e ficou à margem das oportunidades e dos serviços, que só eram ofertados nos centros. Depois, fomos linchados. Enquanto imigrantes vinham com direito a terras e toda forma de apoio, nós já estávamos nas periferias. E isso se perpetua”, afirmou a rapper Lua D’Avila. Ela disse que somente agora resolveu cantar e compor. “Na letra do rap ‘Grito’, que escrevi em parceria com o Cappu, e que fala do racismo estrutural, pude por pra fora um pouco do que eu vivi desde os 4 anos de idade”.
Para Lua, quem buscar informações sobre o hip-hop no Google vai encontrar, entre os primeiros links, uma parte significativa de notícias envolvendo o movimento e a violência. Sites que tratam da importância cultural e social do hip-hop só aparecem mais abaixo. “As informações estão lá para quem quiser saber”, frisou. Lua D’Avila disse que a população branca sempre deteve poder sobre a informação e sua propagação. “A gente também transmite e consome, daí a importância do lugar de fala. A população branca não sabe o que é ser perseguido por seguranças em um mercado. Quem sabe falar sobre nossas questões e nossa história somos nós. Por que não há um assessor preto em todos os gabinetes?” indagou.
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