Debora-Falabella-Fotos-Annelize-Tozetto
“Foi uma das experiências mais emocionantes da minha vida, pra mim e pra toda a equipe. Eu nunca tinha me apresentado no Teatro Guaíra”, atestou em entrevista coletiva na manhã seguinte. O espetáculo é o primeiro solo de Débora Falabella. “Mais do que resistência física, é uma questão de resistência vocal. E tenho muita sorte porque a minha fonoaudióloga, Janaína Pimenta, é a mesma da Ivete Sangalo”, brincou.
O enredo de “Prima Facie”, texto barra-pesada da australiana Suzie Miller que estreou em Londres em 2023, trata de uma advogada criminalista em franca ascensão na carreira, que se sente à vontade lidando com casos de abuso sexual. Até que se vê, ela mesma, vítima do estupro de um colega.
A peça tem dois atos bem definidos. Na primeira parte, um monólogo ágil, repleto de válvulas de escape e tiradas divertidas, vai enredando o espectador até ele ficar totalmente à mercê da pancada que divide a vida da protagonista em antes e depois – mais ou menos à maneira que a personagem de Débora, a advogada Tessa, fazia com suas testemunhas no tribunal. Dali pra frente, tudo fica muito mais escuro e terrificante.
“A Tessa é uma mulher livre que de repente se vê num abismo. E no palco eu sinto exatamente o momento em que o público cai nele junto comigo. É muito comovente”, conta Débora. “Desde a nossa estreia, sempre me impressiona como muitos homens estão na plateia. Alguns vão acompanhados das esposas, e saem completamente mudos, porque alguma coisa pegou ali. É muito bonito poder falar pra todo mundo.”
A montagem, que faz uma indisfarçável crítica ao Sistema Judiciário – a expressão latina “prima facie” significa literalmente “à primeira vista”, e entre os togados é usada para apontar se existem ou não evidências para se seguir com um processo –, tem sido também amplamente vista por juízes, advogados e promotores. A ex-procuradora-geral da República, Raquel Dodge, chegou a atuar como uma espécie de produtora informal para levar o espetáculo a Brasília, depois de assistir no Rio de Janeiro.
A ideia, entretanto, é em breve investir em temporadas, digamos, mais populares. “Não sei se é uma peça que pode mudar muita coisa, mas pode mudar alguma coisa dentro de cada um”, diz Débora. “No Brasil, temos leis maravilhosas, como a Maria da Penha. A gente fala muito do Sistema Judicial, mas essa é uma questão de toda a sociedade. Enquanto a sociedade julgar a mulher culpada, nada vai mudar. Enquanto não mudarmos a maneira que criamos nossos filhos, que eles são educados na faculdade, nada vai mudar. É uma questão que vem lá atrás.”
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