Encontro Impactos Positivos coloca acesso e educação no centro do debate sobre inteligência artificial

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Encontro Impactos Positivos
Foto: Giovanna Moretti (foto:PIP)

Sexta edição do evento discutiu como a adoção da tecnologia pode elevar a capacidade de organizações e profissionais, mas também ampliar diferenças de acesso, formação e repertório no Brasil.

A expansão da inteligência artificial entre empresas e organizações de impacto está deslocando parte do debate sobre a tecnologia. Além dos ganhos de produtividade, cresce a discussão sobre quem terá condições de incorporá-la ao trabalho, quais competências serão necessárias e como evitar que diferenças de acesso e formação aumentem desigualdades já existentes.

Essas questões estiveram no centro do 6º Encontro Impactos Positivos, realizado em 24 de setembro, na FIAP, em São Paulo. Com o tema “Inteligência Artificial. Inteligência humana. Impacto coletivo”, o evento reuniu empreendedores, executivos e representantes de organizações ligadas aos negócios de impacto.

Criado por Gisele Abrahão, fundadora e CEO da plataforma Impactos Positivos, o encontro chegou à sexta edição. Gisele Abrahão também conduziu a apresentação da programação.

No Painel 2 – Pessoas: “IA para ampliar potencial humano e reduzir desigualdades”, a discussão concentrou-se menos na capacidade técnica dos sistemas e mais nas condições necessárias para que seu uso gere ganhos mais distribuídos.

Eduardo Nunes, executivo de Capital Humano, conselheiro e mediador do Painel 2, colocou a responsabilidade social entre os pontos centrais da discussão. Para Eduardo Nunes, uma das divisões relevantes nos próximos anos poderá não ocorrer simplesmente entre seres humanos e máquinas, mas entre pessoas capazes de utilizar a inteligência artificial para ampliar suas capacidades e aquelas sem acesso aos mesmos recursos.

A questão tem implicações para o mercado de trabalho. À medida que ferramentas de IA passam a executar tarefas operacionais e apoiar atividades intelectuais, competências anteriores à própria tecnologia, como a leitura, interpretação, julgamento e capacidade de formular problemas que tendem a ganhar peso.

Mirella Domenich, cofundadora da SUL – Inteligência para Impacto e participante do Painel 2 – Pessoas: “IA para ampliar potencial humano e reduzir desigualdades”, defendeu uma relação em que a inteligência artificial funcione como instrumento de apoio ao pensamento, e não como substituta da decisão humana. Na avaliação de Mirella Domenich, delegar senso crítico às ferramentas representa um risco porque os sistemas operam a partir de modelos probabilísticos, enquanto decisões continuam exigindo julgamento e responsabilidade.

O problema se torna mais complexo em um país marcado por diferenças de renda, infraestrutura e educação. Mirella Domenich comparou o momento atual ao debate sobre inclusão digital que acompanhou a expansão da internet há cerca de 25 anos. A diferença, segundo Mirella Domenich, está na velocidade: a disseminação da IA ocorre em ritmo mais acelerado e pode ampliar tanto soluções quanto desigualdades entre quem consegue utilizá-la e quem permanece fora desse processo.

Essa diferença de acesso não se limita à disponibilidade de um aplicativo. Equipamentos, conectividade, capacidade de interpretação e conhecimento acumulado interferem na forma como a tecnologia é incorporada.

Daiany França Saldanha, diretora-geral da Mais Impacto, cofundadora do Instituto Mudar o Jogo e participante do Painel 2 – apontou essa combinação como um dos principais riscos para organizações e empreendedores de menor porte. Segundo levantamento citado por Daiany França Saldanha durante o painel, realizado com mais de 300 empreendedoras de regiões Sul e Leste de São Paulo, 95% administravam seus negócios principalmente pelo smartphone.

A predominância do celular ilustra uma barreira prática. Embora ferramentas de inteligência artificial já estejam disponíveis nesses dispositivos, determinadas aplicações profissionais dependem de infraestrutura, equipamentos, conectividade e conhecimento que não estão distribuídos de maneira uniforme.

Daiany França Saldanha afirmou que a IA já contribui para atividades como captação de recursos no terceiro setor, mas ponderou que a tecnologia, sem políticas públicas, formação e responsabilidade corporativa, pode reproduzir diferenças existentes. Para Daiany França Saldanha, organizações precisam avaliar seus processos antes de incorporar novas ferramentas.

Essa análise contrasta com uma abordagem comum no mercado, na qual a adoção de IA é tratada como objetivo em si. Daiany França Saldanha defendeu que empresas e organizações identifiquem primeiro o problema que pretendem resolver e somente depois decidam se a inteligência artificial é o instrumento adequado. Na captação de recursos, por exemplo, a eficiência não está apenas em obter mais financiamento, mas em encontrar recursos compatíveis com a finalidade e a estratégia da organização.

Henrique Calandra, fundador e CEO da WallJobs e participante do Painel 2, também associou o impacto da IA à formação anterior dos trabalhadores. Na avaliação de Henrique Calandra, dificuldades de leitura, escrita e interpretação podem limitar a capacidade de utilizar sistemas que produzem respostas plausíveis, mas sujeitas a erros e inconsistências.

Nesse cenário, o diferencial profissional não estaria apenas no domínio de uma ferramenta específica. Henrique Calandra destacou a curiosidade como característica relevante para trabalhadores expostos a mudanças tecnológicas frequentes. A capacidade de investigar, testar informações e ampliar repertório tende a ser mais duradoura do que o conhecimento de uma plataforma que pode perder espaço para outra.

A discussão do Painel 2 – Pessoas: “IA para ampliar potencial humano e reduzir desigualdades” também mostrou uma tensão presente nas estratégias corporativas. De um lado, empresas buscam inteligência artificial para reduzir tempo gasto em tarefas administrativas, organizar informações e automatizar processos. De outro, atividades dependentes de confiança, relacionamento e compreensão de contexto continuam exigindo participação humana.

Henrique Calandra citou o uso de sistemas que funcionam como uma espécie de arquivo pessoal de conhecimento, reunindo transcrições de aulas, reuniões e outros conteúdos para consultas posteriores. O exemplo mostra uma das formas pelas quais a IA pode atuar como extensão de processos de organização e reflexão, em vez de substituir integralmente a atividade profissional.

Para organizações de impacto, Mirella Domenich apontou outra possibilidade: utilizar a tecnologia não apenas para aumentar produtividade interna, mas para ampliar o alcance da própria missão. Isso inclui chegar a públicos anteriormente fora do alcance de uma organização, incorporar recursos de acessibilidade a produtos e serviços ou reduzir custos de determinadas operações.

A diferença é relevante para um setor no qual escala e sustentabilidade financeira frequentemente caminham juntas. Se utilizada apenas para automatizar tarefas administrativas, a inteligência artificial pode gerar ganhos semelhantes aos observados em outras empresas. Quando incorporada à entrega do produto ou serviço, pode alterar a capacidade de atendimento e a estrutura de custos de uma iniciativa de impacto.

O avanço, porém, depende de repertório. Daiany França Saldanha argumentou que pessoas com maior conhecimento acumulado tendem a formular melhores perguntas e avaliar com mais precisão as respostas fornecidas pelas ferramentas. Nesse contexto, experiência profissional e domínio de determinado setor podem ganhar novo valor, mesmo em um mercado associado frequentemente às gerações mais jovens.

O debate também alcançou a formação das próximas gerações. Mirella Domenich defendeu o desenvolvimento de criatividade, senso crítico e atividades que estimulem concentração e interação fora das telas. O argumento parte da expectativa de que crianças que ingressarem no mercado de trabalho nas próximas décadas encontrarão sistemas de IA incorporados a uma parcela significativa das atividades profissionais.

O encontro também recebeu a sexta edição do Prêmio Impactos Positivos. A Aventura de Construir foi reconhecida na categoria Dinamizador; o Pesqueiro Sustentável, em Ideação; a TrackGains, em Operação; e o Parque Ecológico Rio Formoso, em Tração/Escala.

A discussão realizada em São Paulo reflete uma mudança mais ampla no estágio de adoção da inteligência artificial. A pergunta para empresas e organizações começa a migrar de quais ferramentas utilizar para quais problemas devem ser resolvidos com elas e quais condições humanas e institucionais precisam existir para que os ganhos sejam sustentáveis.

Em economias com fortes diferenças educacionais e de acesso à tecnologia, essa transição tende a ter consequências além da produtividade empresarial. A capacidade de combinar infraestrutura, formação, pensamento crítico e uso responsável da IA deverá influenciar não apenas a competitividade das organizações, mas também a distribuição dos benefícios produzidos pela próxima etapa da transformação digital.

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