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Estudo detecta perda de potencial pesqueiro na bacia do Paraná

A biodiversidade aquática brasileira está encolhendo – em tamanho e valor. É o que mostra um estudo publicado na revista Nature Ecology and Evolution.

A pesquisa analisou dados de 21 anos sobre comunidades de peixes no alto rio Paraná e revelou que o avanço das atividades humanas, especialmente da agricultura, tem alterado de forma profunda a composição desses ambientes.

Peixes nativos de maior porte estão desaparecendo, enquanto espécies invasoras, menores e menos exigentes, se multiplicam. O resultado é uma perda de biodiversidade e uma queda drástica no rendimento da pesca: menos peixe, menos alimento, menos renda.

“O que estamos vendo é uma substituição das espécies nativas por invasoras. Isso compromete o funcionamento dos ecossistemas e o sustento das populações humanas que deles dependem”, explica Victor Saito, docente do Departamento de Ciências Ambientais (DCAm) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e um dos autores do estudo.

O trabalho traz um alerta para o impacto cumulativo da transformação da paisagem sobre os serviços ecossistêmicos – ou seja, os benefícios que a natureza oferece à sociedade. Nesse caso, o serviço analisado foi a pesca, que perdeu mais da metade de seu valor econômico em apenas duas décadas.

Peixes menores, ecossistemas empobrecidos

A transformação da terra para agricultura, especialmente nas bacias do Cerrado e da Mata Atlântica, tem causado impactos profundos nos rios brasileiros. O desmatamento das matas ciliares, a intensificação do uso de insumos químicos e o aumento de sedimentos nos cursos d’água alteram as condições físicas e químicas dos ambientes aquáticos. Esse cenário afasta espécies nativas de grande porte, como o dourado (Salminus brasiliensis), o pintado (Pseudoplatystoma corruscans) e a curimba (Prochilodus lineatus) – importantes para o equilíbrio ecológico e com alto valor comercial. Em seu lugar, passam a dominar espécies exóticas, como a tilápia (Oreochromis niloticus) e a pescada-amazônica (Plagioscion squamosissimu), com menor valor de mercado e menor importância funcional para o ecossistema.

“Essas espécies invasoras muitas vezes conseguem se estabelecer porque toleram ambientes degradados, mas isso apenas evidencia a degradação dos habitats originais. Elas não substituem os papéis ecológicos das espécies nativas, nem o seu valor para a pesca”, afirma Dieison André Moi, pesquisador de pós-doutorado do Instituto de Biologia (IB) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e primeiro autor do estudo.

Além de alterar a biodiversidade, essas mudanças reduzem diretamente os benefícios que os ecossistemas fornecem às populações humanas. Em termos práticos, a substituição dos grandes peixes nativos por invasores menos valorizados resultou em uma perda de mais de 50% no valor da pesca entre 2002 e 2022 na região do alto Paraná. “Isso representa uma renda cortada pela metade para os pescadores, menor disponibilidade de alimento e mais tensão local – especialmente entre os que vivem da pesca comercial e os que praticam a atividade de forma esportiva”, alerta Moi.

No estudo, os cientistas avaliaram o rendimento pesqueiro, que é um serviço fundamental para gerar alimento e renda para as populações ribeirinhas. “Os peixes nativos têm alto valor comercial, enquanto os invasores apresentam valor econômico significativamente menor. Além disso, peixes nativos de grande porte – como o dourado e o pintado – são os mais valiosos para a pesca, e justamente esses estão desaparecendo. Peixes invasores grandes, como o tucunaré, não têm a mesma relevância comercial. Portanto, a substituição dos peixes nativos por espécies invasoras resulta em perdas significativas nos serviços ecossistêmicos”, reforça Saito.

“É importante compreender que não está em risco apenas a diversidade biológica, mas também a funcionalidade dos ecossistemas e o bem-estar das populações humanas que dependem diretamente desses ambientes”, afirma Gustavo Romero, docente do IB da Unicamp e autor sênior do trabalho. “Rios em equilíbrio sustentam comunidades mais resilientes e sociedades mais saudáveis”, complementa.

Segundo os autores, o cenário observado no rio Paraná serve de alerta para outras bacias brasileiras, especialmente na Amazônia, Pantanal e Caatinga, onde os mesmos processos de degradação podem levar a perdas similares. “Reverter essa tendência exige um conjunto articulado de políticas públicas, como a restauração de matas ciliares, o incentivo a práticas agrícolas sustentáveis, o controle de espécies invasoras e o fortalecimento da pesca artesanal e comunitária. É necessário reconhecer que a integridade dos rios está intimamente ligada à qualidade de vida das populações locais, afetando tanto o meio ambiente quanto a economia regional”, conclui Saito.

O estudo, financiado por agências como a Fundação Araucária, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), integra o Programa Ecológico de Longa Duração (PELD-PIAP) e se destaca pela robustez metodológica e pela abordagem integrada, que considera simultaneamente aspectos ecológicos e socioeconômicos ao longo de séries temporais extensas.

Além da UFSCar e da Unicamp, o estudo contou com a participação de pesquisadores da Universidade Estadual de Maringá (UEM), Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Universidad de la República (UDELAR, do Uruguai), Brunel University of London e Queen Mary University of London, no Reino Unido.

O artigo – “Human land use and non-native fish species erode ecosystem services by changing community size structure” – pode ser acessado neste link.

Redação JBA Notícias

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