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Geada Negra: 50 anos do evento climático que mudou a agricultura regional

Aquele dia 18 de julho de 1975 havia amanhecido como outro qualquer, mas reservava
a João José Resende Paiva uma surpresa que marcaria sua vida e a agropecuária do Paraná.  Com 27 anos, à época, o rapaz que tocava a propriedade da família em Cambé, município da Região Metropolitana de Londrina, desconfiou que algo estava errado quando encontrou, no pasto, um touro nelore que, ao chacoalhar o dorso, espalhava gelo ao redor.

Aquele cenário era uma pequena mostra dos efeitos da geada negra, umas das mais intensas catástrofes climáticas do século passado. O episódio quase exterminou a produção de café
no Paraná, até então, o maior produtor nacional. Além dos reflexos na cultura cafeeira, o fenômeno modificou severamente a agropecuária estadual, abrindo caminho para o avanço dos grãos, principalmente da soja.

“Vivi perfeitamente essa geada. Era uma sexta-feira de lua minguante. Eu tomava conta da fazenda da família, inclusive morava nela. Quando acordei, estava tudo branco. A coisa foi tão severa que, perto do meio-dia, ainda havia poça”

Os dados comprovam a mudança de perfil da agropecuária paranaense após a ocorrência
da geada negra. De acordo com a série histórica do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), na safra de 1975, com a colheita encerrada antes do fatídico dia 18 de julho, o Paraná colheu 10,2 milhões de sacas de café (48% da produção nacional).

Na temporada seguinte, a produção despencou para míseras 3,8 mil sacas, fazendo com que a participação estadual na produção brasileira representasse insignificantes 0,1%.

O que é a geada negra?

A geada negra é um fenômeno climático severo que ocorre quando o ar frio e seco causa um rápido congelamento da seiva das plantas, levando à necrose (morte) dos tecidos vegetais. Diferentemente da geada branca, que forma cristais de gelo visíveis, a negra atua causando danos internos, com efeitos devastadores para a agricultura.

A geada negra é mais rara porque requer uma combinação de frio extremo e ar seco, que costuma ocorrer com mais frequência em cidades serranas do Sul. O fenômeno, muitas vezes, é agravado pelo vento mais intenso, que retira calor mais rapidamente das plantas e nem sempre forma gelo na superfície como a geada branca, pois não há umidade relativa do ar suficiente para isso.

“A geada não permitiu nem a recepa [corte rente ao chão para renovar a planta] dos pés de café. Foi um período muito difícil. Vi muitas famílias indo embora para a cidade. Arrisco dizer que ali começou o êxodo rural no Paraná”, conta o produtor rural Edson Dornellas, então com 12 anos, que também acompanhou de perto o drama imposto pela geada negra.

Na época, o avô e o pai de Dornellas tocavam duas propriedades no município de Nova Esperança, uma dedicada integralmente ao café, enquanto a cultura dividia espaço com pecuária na outra.

Nós, como outros tantos produtores, tivemos que arrancar todo o café. No nosso caso, plantamos frutas para ter dinheiro mais rápido. Mas as mudanças começaram no meio rural, com a entrada de novas culturas.

Edson Dornellas, produtor rural de Nova Esperança

Cinco décadas depois da geada negra, a cultura do café está reduzida a pouco mais de 25 mil hectares no Paraná (na década de 1970, os cafezais chegaram a ocupar mais de 615 mil hectares). Atualmente, o Paraná é referência em café de qualidade, também conhecido como especiais, produzido em pequenos núcleos produtivos. “Hoje, você conta nos dedos quem ainda está no café”, resume Inocente.

Por outro lado, como se diz pelo interior do Paraná, “a soja está sendo plantada até na porta dos cemitérios”.

O Estado produziu 21,4 milhões de toneladas do grão na safra 2024/25, com tendência de aumento a cada safra, graças ao ganho de produtividade dentro da porteira.

Sistema FAEP atuou para a recuperação do setor

Logo no dia seguinte à geada negra, em meio aos relatos de perdas brutais no interior, governos federal e estadual iniciaram um programa para minimizar os efeitos dos estragos. O ministro da Agricultura na época, Alysson Paulinelli, do governo do presidente Ernesto Geisel, esteve em Curitiba. Acompanhado do governador Jayme Canet, Paulinelli propôs um plano de emergência para socorrer os produtores atingidos, evitando o colapso das atividades agrícolas.

O Sistema FAEP colaborou diretamente neste processo. A entidade realizou um levantamento das perdas, que chegavam a 950 milhões de pés de café mortos.

O presidente na época, Mário Stadler, pediu urgência nas ações de mitigação dos estragos causados pelo fenômeno climático, como a liberação imediata do seguro agrícola e a manutenção de preços para assegurar a venda dos estoques de café.

A entidade também solicitou medidas para a pecuária, como autorização para o abate de animais atingidos pelo frio, congelamento de preços de rações e linhas de crédito para financiar máquinas e equipamentos danificados pelo frio. Mesmo assim, o setor agropecuário paranaense já estava fadado a mudança de perfil.

A soja avançaria de forma desenfreada, a ponto do governador Canet, em mensagem enviada à Assembleia Legislativa do Paraná (Alep) em março de 1976, diagnosticar o novo cenário no interior do Estado: “a boa performance de culturas, como a soja, são alternativas às plantações destruídas de café”.

A geada negra expandiu um caminho agrícola sem volta no Paraná. A soja, que na safra 1976/77 ocupava 2,2 milhões de hectares, se espalhou como um rastilho de pólvora nas décadas seguintes. As vastas áreas antes ocupadas por pés de cafés deram espaço à oleaginosa, que, com o passar do tempo, assumiu o protagonismo do setor rural paranaense. Hoje, mais de 5,8 milhões de hectares são dedicados ao grão a cada temporada.

“Naquele tempo não tinha soja em abundância. A geada negra foi a mola propulsora para entrada do grão, pois o pessoal migrou”, afirma o produtor Sebastião Luiz Inocente, testemunha ocular do fenômeno ocorrido há cinco décadas.

Na época com 19 anos, Inocente estudava Medicina Veterinária na Universidade Estadual de Londrina (UEL) e ajudava o avô no sítio voltado à pecuária de leite e o pai, na propriedade onde mantinham pecuária de corte, ambas em Cambé.

“Não foram só os cafeicultores que sofreram. O desespero foi geral. No nosso caso, o pasto queimou todo. Como tínhamos quatro hectares de cana, antes de azedar, usamos para alimentar os animais, pois ainda estava palatável. Conseguimos manter parte do gado bem magro. Mas alguns animais mais sensíveis morreram de fome”, relembra. “Cambé era 99% de café. A geada foi a pá de cal. Nos anos seguintes, a soja entrou pra valer”, conta o produtor que dedica grande parte da propriedade de 960 hectares à soja, ao milho e ao trigo, no sistema de rotação.

“O Sistema FAEP atuou fortemente para auxiliar na recuperação do setor, como faz há 60
anos. Aquele foi um período muito difícil, que exigiu resiliência dos nossos produtores rurais. Mudanças ocorreram, mas a nossa agropecuária segue forte”, destaca o presidente interino do Sistema FAEP, Ágide Eduardo Meneguette.

Redação JBA Notícias

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