Herson Capri debuta no Festival de Curitiba depois de ter brincado nas obras do Guaíra e visto o teatro pegar fogo

PUBLICIDADE

HersonCapri A Sabedoria dos Pais _ credito Nana Moraes
HersonCapri A Sabedoria dos Pais _ credito Nana Moraes

Por Sandoval Matheus

Hoje um dos maiores e mais conceituados centros culturais do Brasil, o Teatro Guaíra foi erguido lentamente e em etapas, ao longo de mais de duas décadas. As obras começaram em 1952 e atravessaram os anos 1960. A inauguração do grande auditório só aconteceu mesmo em 1974. Nesse meio-tempo, o ponta-grossense Herson Capri e os amigos da infância costumavam fazer do entulho acumulado pela obra parada um playground pra brincar de polícia e ladrão e esconde-esconde. Mais tarde, quando um incêndio de grandes proporções adiou ainda mais a entrega final do edifício, o ator assistiu ao vivo, da Praça Santos Andrades, às labaredas que consumiam a estrutura.

“Eu tinha uns 17 anos e estava indo levar minha namorada pra casa, como fazia sempre. A gente passou por ali e viu tudo. Eu já fazia teatro nessa época, então foi uma coisa que bateu forte”, relembra, em entrevista por telefone ao Fringe.

Agora Herson Capri faz o seu debute no Festival de Curitiba e apresenta no mesmo Teatro Guaíra da sua infância e adolescência a peça “A Sabedoria dos Pais”, escrita e dirigida por Miguel Falabella especialmente para ele e a amiga de longa data Natália do Valle. As sessões acontecem nos dias 08 e 09 de abril, às 20h30.

No mesmo complexo, no auditório do Guairinha, o ator apresentou seu primeiro espetáculo, quase 60 anos atrás, ainda como estudante do Colégio Estadual do Paraná. A peça “O Julgamento de Joana”, escrita por Eddy Franciosi e dirigida por Telmo Faria, era baseada no veredito a que foi submetida a mártir francesa Joana D’Arc, e chegou a fazer turnê até pelo Rio de Janeiro, durante um mês.

O ator ainda lembra de quando tomou a decisão que definiria sua existência dali pra frente. “Eu estava me concentrando durante o ensaio geral, olhei os refletores apagados e pensei: tenho quinze anos e descobri o que quero fazer pelo resto da minha vida.”

Um pouco de pressão familiar, no entanto, o fez começar o curso de economia pela Universidade de São Paulo (USP) – isso e o fato de ele achar que essa era uma boa oportunidade para “ajudar o mundo a acabar com a fome”. “É claro que depois eu descobri que não era isso que faziam ali”, critica. Na nova cidade, encontrou um grupo de universitários da PUC e continuou fazendo teatro ali.

O ator foi politizado desde a infância pela convivência com o pai, Jair Capri, um tesoureiro do Partido Comunista Brasileiro que corria o Paraná organizando greves e sindicatos e chegou a ser preso pela ditadura militar. A casa da família, na Rua Doutor Faivre, centro de Curitiba, recebia reuniões do “partidão” periodicamente, num esquema de revezamento para driblar a vigilância dos milicos. Aos 12 anos, o garoto pegava a bicicleta para ir visitar o pai no Presídio do Ahu, levando a tiracolo comida, cigarros e jornais. O pai nunca sofreu tortura, mas passou 20 dias na solitária e dali pode ouvir os amigos sendo seviciados.

Capri largou a economia, mas nunca esqueceu o exemplo paterno, que pregava a igualdade entre os homens. “Ele também tinha uma conexão muito grande com a cultura. Lia pra mim as fábulas de Esopo e Saint-Exupéry, e sempre me levava às peças de teatro que iam pra Curitiba, que não eram muitas”, diz. “Ele não gostava de Stálin, que considerava um autoritário, mas lia Marx e Lênin. Eu sou totalmente a favor das políticas compensatórias, desse estado de bem-estar social que existiu na Europa e que agora estão tentando destruir também lár. O Brasil tem que ajudar quem mais precisa. O Fernando Haddad é um dos melhores ministros da Fazenda que já tivemos, se não for o melhor.”

O elogio, no entanto, não é irrestrito. “Desde que eu comecei, a arte de interpretar evoluiu muito, mas o Brasil sempre esteve um pouco aquém. O incentivo ao teatro é muito menor do que o dado à indústria e aos bancos, embora o teatro dê muito mais retorno, inclusive com geração de renda e empregos”, desabafa. “Hoje você tem a demonização da Lei Rouanet, mesmo com ela tendo uma auditoria muito forte e rigorosa. Se você disser que vai gastar com um lápis e gastar com uma borracha, tem que se explicar. Então, se o fazer artístico evoluiu no Brasil, foi às custas dos profissionais”, lamenta Capri, dono de um estilo cortês mas direto, sem disposição para dar muitas voltas antes de dizer o que quer.

Uma das mudanças mais radicais aconteceu por conta das mudanças de contrato promovidas pela Rede Globo e a ascensão do streaming, no qual recentemente Capri fez sucesso com o vilão Átila Argento, de “Beleza Fatal”, novela transmitida pela HBO Max. A principal novidade foi a duração: “Beleza Fatal” teve apenas 40 capítulos, contra os mais de duzentos do formato tradicional. “Não é uma série, é uma novela mesmo, com tom de cinema. E é muito melhor para o público, as coisas acontecem com mais rapidez, a trama tem consistência. No tamanho antigo, é todo mundo obrigado a encher muita linguiça.”

Em certo momento, o ator chegou a ficar conhecido pelo público dos folhetins pelos papeis maléficos, interpretando na tela sucessivos patifes e vigaristas, ao ponto de precisar pedir um tempo pra antiga emissora. “O vilão é o antagonista e dramaturgia é antagonismo, é conflito, é isso que faz a trama rodar. O problema é a repetição, você não evolui no ofício se faz sempre o mesmo personagem. Pedi pra me darem qualquer outra coisa, um mendigo que fosse”, ri.

Nos mais de cinquenta anos como intérprete – ele faz questão de destacar que tem 51 de profissão, mas quase 60 de teatro –, Herson Capri ultrapassou a marca dos cem personagens. Foram 38 peças, 37 novelas e 22 filmes, fora as séries.

No cinema, estrelou no papel de Barão do Serro Azul o longa “O Preço da Paz”, que venceu o Prêmio do Júri Popular do Festival de Gramado em 2003. O drama conta a história de uma tragédia curitibana pouco conhecida do público em geral, quando, em meio à Revolução Federalista, os maragatos chegaram às portas da capital, tendo deixado um rastro de destruição, morte e estupros por onde passavam.

A fuga do então governador Vicente Machado deixou a cidade completamente desprotegida, e o barão reuniu os mais proeminentes comerciantes da época para recolher dinheiro e subornar os rebeldes, a fim de garantir que os curitibanos não fossem as próximas vítimas da guerra civil. Quando os maragatos foram finalmente solapados, Vicente Machado voltou ao cargo, tratando o barão como traidor. Ele foi preso e fuzilado às margens da Estrada da Graciosa.

É no teatro, no entanto, que Herson Capri diz se realizar plenamente. “Eu prefiro sempre. Ali está a consistência, o estudo profundo do personagem, o posicionamento concreto, o contato com o público, coisa que nenhuma inteligência artificial nunca vai substituir. A tevê e as séries são entretenimento, a função delas é o lucro. E a gente fica sempre à mercê disso.”

É também nos palcos que ele mais exerce a função de diretor. Nessa seara, a mais recente investida foi o espetáculo “Eu Sou Minha Própria Mulher”, com o ator Edwin Luisi.  “O meu ponto forte é que eu estendo tapete vermelho pros atores. Ouço e acato a opinião deles. O diretor sabe do todo, mas quem sabe mais do personagem é o ator. Nem todo diretor percebe isso.”

Aos 74 anos, Herson Capri é difícil de derrubar. Há poucas semanas, sofreu um infarto, mas isso adiou apenas por alguns dias as apresentações de “A Sabedoria dos Pais” em São Paulo. Na década de 90, perdeu metade do pulmão por conta de um câncer – mesmo já tendo deixado de fumar há seis anos –, que descobriu às vésperas de encenar “A Paixão de Cristo”, e fez a peça mesmo assim, exibindo a cicatriz da cirurgia. Em 2008, novo câncer o fez retirar vinte centímetros do intestino.

O empenho e a dedicação são, para ele, o segredo do ofício. “Eu falo até o ponto da obsessão mesmo. É como em qualquer profissão. Dá pra melhorar sempre, isso é infinito.”

“A Sabedoria dos Pais” conta com acessibilidade de intérprete de Libras. A Mostra Lucia Camargo no Festival de Curitiba é apresentada por Petrobras, Sanepar e Governo do Estado do Paraná, Prefeitura de Curitiba e Fundação Cultural de Curitiba, com patrocínio de EBANX, Viaje Paraná e Copel, com realização do Ministério da Cultura e Governo Federal – Do lado do povo brasileiro. Acompanhe todas as novidades e informações pelo site do Festival de Curitiba www.festivaldecuritiba.com.br, pelas redes sociais disponíveis no Facebook @fest.curitiba, pelo Instagram @festivaldecuritiba e pelo Twitter @Fest_curitiba.

Ficha Técnica:

Texto e Direção: Miguel Falabella

Elenco: Natália do Vale e Herson Capri

Assistente de Direção: Edwin Luisi

Cenário: Turíbio e Zezinho Santos Arquitetura

Luz: Paulo César Medeiros

Trilha Sonora: Leandro Lapagesse

Vídeo: Richard Luiz

Figurino: Marco Pacheco e Jemima Tuany

Direção Técnica: Nailton Silva

Designer de Som e Operadora: Julia Mauro

Camareira: Valkiria Cabral

Assistente de Produção: Gabriel Vaccaro e Pillar Paiva

Assessoria de Comunicação: Adriana Balsanelli

Coordenação de Produção e Tour Mananger: Robert Litig

Direção de Produção: Theo Falabella.

Serviço:

A Sabedoria dos Pais – Mostra Lucia Camargo

34º Festival de Curitiba

Local: Guairão – Rua Conselheiro Laurindo, 175 – Centro

Data: 8 de 9 de abril

Horário: 20h30

Categoria: Comédia

Classificação: 14 anos

Duração: 90 min

34.º Festival de Curitiba
Data: De 30/3 até 12/4 de 2026
Valores: Os ingressos vão de R$00 até R$85  (mais taxas administrativas).
Ingressos: www.festivaldecuritiba.com.br e na bilheteria física exclusiva no Shopping Mueller – Piso L3 (Segunda a sábado, das 10h às 22h e, domingos e feriados, das 14h às 20h).
Verifique a classificação indicativa e orientações do espetáculo.
Descontos especiais para colaboradores de empresas apoiadoras, clubes de desconto e associações.

Hashtags oficiais – #festivaldecuritiba #festcuritiba  #teatroguaira #guairão #sabedoriadospais

Luis_Batista_Fotografia__Banner JBA

Mais recentes

PUBLICIDADE

Rolar para cima