Paraná lidera o Brasil em Indicações Geográficas

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Adriano Oltramari. Alguns produtos paranaenses reconhecidos como IG, pelo INPI.

No Paraná, é possível passar um dia inteiro à mesa com produtos que carregam origem, tradição e reconhecimento. Do café da manhã ao jantar, as Indicações Geográficas (IGs) revelam a diversidade produtiva do estado e transformam alimentos do cotidiano em ativos econômicos.

O dia pode começar com frutas como ponkan de Cerro Azul, uvas de Marialva e morango do Norte Pioneiro, acompanhadas de méis produzidos em diferentes regiões do estado. Antes, porém, um chimarrão com erva-mate São Matheus. À mesa, a broa de centeio de Curitiba, combinada com queijos de Witmarsum e a cracóvia de Prudentópolis, ganha ainda mais identidade ao lado de cafés premiados do Norte Pioneiro ou de Mandaguari.

No almoço, a tradição aparece em pratos como o barreado do litoral, que pode ser precedido pela cachaça de Morretes e incorporar ingredientes como o urucum de Paranacity. Já a carne de onça de Curitiba e os vinhos de Bituruna reforçam a conexão entre gastronomia e território, que se estende até o café da Serra de Apucarana, fechando a experiência com produtos reconhecidos por sua origem.

À tarde, entram em cena produtos como as tortas de Carambeí e as balas de banana de Antonina. À noite, opções como as ostras de Cabaraquara ampliam essa experiência gastronômica, que pode ser finalizada com um chá de camomila de Mandirituba.

Mais do que compor uma mesa diversa, esses produtos ajudam a explicar por que o Paraná lidera o número de Indicações Geográficas no Brasil, com 24 registros, além de um reconhecimento compartilhado com Santa Catarina e Rio Grande do Sul. O conjunto revela, em sabores, a força produtiva, a organização dos territórios e a identidade regional.

As IGs são concedidas pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) e atestam produtos com características únicas vinculadas à sua origem. Mais do que um selo, representam uma estratégia de valorização econômica, proteção e posicionamento de mercado para produtores e regiões.

A consultora do Sebrae/PR, Maria Isabel Guimarães, explica que a Indicação Geográfica estrutura e fortalece produtos que já possuem reputação e vínculo com o território. No Paraná, esse trabalho começou de forma organizada em 2009, com o mapeamento de 35 produtos com potencial para reconhecimento. O primeiro registro veio em 2012, com os cafés especiais do Norte Pioneiro.

“A IG mobiliza toda a cadeia produtiva e transforma um produto em ativo do território. Os impactos vão além da produção: alcançam o comércio local, o turismo e serviços como design, rotulagem e pesquisa. A região passa a ser reconhecida e procurada a partir daquele produto”, afirma.

Além de agregar valor, o selo garante proteção legal: apenas produtores da área delimitada e que seguem critérios técnicos podem utilizar o nome reconhecido, o que evita imitações e fortalece a credibilidade no mercado.

“Existe um antes e um depois da IG. O produto já existia, mas, com o reconhecimento, ganha organização, proteção e valorização. Isso gera renda, movimenta a economia local e fortalece o sentimento de pertencimento da comunidade. E hoje é totalmente possível termos uma rotina alimentar contando com alimentos que detém a IG”, completa a consultora.

A primeira IG do Paraná

No Norte Pioneiro, o café é mais do que uma cultura agrícola: é memória familiar. O produtor e presidente da Associação de Cafés Especiais do Norte Pioneiro do Paraná (Acenpp), Jonas Aparecido da Silva, de Pinhalão, conta que sua família trabalha com café há mais de um século, desde que seus antepassados vieram da Espanha, em 1918, para atuar na lavoura paulista.

Segundo o produtor, o diferencial do café com a IG está no terroir, a combinação de solo, clima e tradição produtiva que resulta em uma bebida de sabor caramelo achocolatado e acidez mais baixa.

“A Indicação Geográfica mudou muita coisa na nossa vida. Trouxe organização, assistência técnica, cuidado com a parte legal e financeira. Hoje a gente vende mais do que café: vende história, conteúdo e identidade”, diz.

Tradição reinventada no campo

A produtora Franciele Rhenbach Hassel Bauer, encontrou no campo um modo de vida e um propósito. Formada em Agronomia, ela decidiu permanecer na propriedade da família em Manfrinópolis, no Sudoeste do Paraná, e transformar a produção de leite em valor agregado. O que começou como uma ideia voltada a queijos mais industrializados mudou de rumo em 2019, após um curso de produção artesanal.

Desde então, ela e o marido estruturaram a queijaria, conquistaram o registro da agroindústria e passaram a levar o queijo colonial da região para feiras e eventos, fortalecendo um produto que carrega a história dos colonizadores europeus e o saber transmitido entre gerações. Mesmo sem tradição familiar direta na atividade, Franciele se conectou a uma cultura presente no entorno, onde o queijo sempre foi complemento de renda e, hoje, se consolida como fonte principal para muitas famílias.

Com a conquista da Indicação Geográfica, em 2025, a produtora destaca que o reconhecimento trouxe visibilidade e valorização imediata, especialmente em datas comemorativas, quando consumidores passaram a buscar o produto como presente diferenciado.

“A Indicação Geográfica é uma realização. A gente vê todo esse trabalho sendo reconhecido e o consumidor vindo atrás, querendo conhecer, provar e entender a história. O queijo colonial do Sudoeste carrega um saber fazer passado de geração em geração, e agora ele ganha valor, identidade e força para manter as famílias no campo e desenvolver toda a região”, afirma Franciele.

Ela ressalta ainda que o selo ajuda a preservar a essência artesanal do produto, com técnicas predominantemente manuais, leite da própria região e receitas que respeitam a diversidade de saberes locais.

Sabor com identidade e história

Em Prudentópolis, a cracóvia é mais do que um embutido, é parte da identidade cultural de uma região marcada pela imigração ucraniana. O empreendedor José Marcos Mahulak, relembra que a atividade começou de forma modesta, no fim dos anos 1990, como complemento de renda em uma mercearia familiar no interior. Na época, o foco era a produção de linguiças e derivados suínos, até que, a partir de 2010, a família passou a investir na cracóvia, enfrentando erros e tentativas até chegar a uma receita padronizada, inspirada em tradições europeias e adaptada ao paladar local.

Produzida a partir de cortes nobres do pernil suíno, com seleção manual e defumação lenta, a cracóvia se consolidou ao longo das décadas, tornando-se um símbolo gastronômico regional. Com a organização dos produtores em associação e o apoio de entidades como Sebrae/PR e cooperativas, o produto conquistou a Indicação Geográfica, o que foi um marco que ajudou a ampliar sua visibilidade e consolidar a identidade do produto.

“A IG trouxe visibilidade e colocou a cracóvia em outro patamar. Hoje ela não é só de Prudentópolis, ela representa o Paraná. O selo fortaleceu a identidade do produto, deu mais segurança para o consumidor e abriu portas para divulgar nossa cultura e tradição em feiras e eventos”, afirma Mahulak.

Identidade gastronômica

Na cozinha, essa riqueza ganha forma narrativa, explica o chef de cozinha do Tekoa, em Curitiba, Felipe Cavalcanti Zibetti de Souza, que utiliza produtos com IG em seu restaurante. Segundo ele, a escolha vai além do sabor, trata-se de afirmar identidade.

“Gastronomia é expressão cultural. O que se come fala muito sobre quem somos. Um prato pode contar a história de um território”, conta Felipe.

Ao criar receitas como uma lasanha elaborada com ingredientes de diferentes IG paranaenses, como queijos, embutidos e derivados de banana, o chef busca traduzir o processo histórico de formação do estado.

“A gente monta o prato usando produtos de Indicação Geográfica e, através deles, conta a formação do povo e da cultura paranaense. A valorização dessas matérias-primas contribui para criar a identidade da gastronomia paranaense. Eles nascem dos nossos solos, das nossas influências étnicas e ciclos econômicos”, explica o chef.

A percepção do consumidor, segundo ele, é positiva quando a narrativa acompanha o prato.

“Quando o cliente entende de onde vem o produto e como ele é feito, há mais confiança. E confiança é base de qualquer relação comercial”, conclui Felipe.

Culturas e biomas paranaenses

As IGs paranaenses refletem a diversidade geográfica e cultural do estado. Litoral caiçara, campos gerais, Norte Pioneiro, Sudoeste, Vale do Ribeira, regiões de colonização italiana, alemã, ucraniana e holandesa, cada território imprimiu sua marca nos modos de fazer.

Essa diversidade constrói um mosaico econômico e cultural. Produtos como cracóvia, queijos coloniais, mel, erva-mate, vinhos, bala de banana, pão no bafo e carnes típicas traduzem influências migratórias adaptadas ao solo paranaense.

Para o coordenador do Fórum Origens Paraná, diretor da Associação dos Amigos da Onça e diretor da Curitiba Honesta, Sérgio Medeiros, o selo de IG causa mudanças que vão do campo à mesa, impactando a autoestima de quem produz, valorização comercial e até abertura de mercados internacionais.

Segundo ele, produtos certificados podem alcançar preços até quatro vezes superiores, além de contar com proteção formal da receita ou do modo de fazer. Na prática, afirma Sérgio, é plenamente possível montar um cardápio completo apenas com IG paranaenses.

“Temos 24 tesouros no Paraná, produtos únicos que precisam ser contados primeiro para nós mesmos e depois para o Brasil e o mundo. Quem prova percebe a diferença no café, na goiaba, no mel, nos queijos. Meu sonho é que cada vez mais pessoas tenham acesso a esse privilégio”, completa Sérgio.

Em alguns casos, trata-se de Indicação de Procedência; em outros, de Denominação de Origem, quando se comprova que o próprio ambiente natural influência diretamente as características do produto.

O Paraná transformou seu território em estratégia e tradição em ativo econômico. A cada xícara de café, fatia de queijo ou colherada de doce com selo de origem, reafirma-se que desenvolvimento regional pode nascer do respeito à história.

No fim das contas, montar uma mesa paranaense do café da manhã ao jantar não é apenas exercício gastronômico, é uma síntese do próprio estado: diverso, produtivo e profundamente ligado às suas raízes.

As IGs do Paraná

Ostras do Cabaraquara, ponkan de Cerro Azul, broas de centeio de Curitiba, cracóvia de Prudentópolis, carne de onça de Curitiba, café de Mandaguari, urucum de Paranacity, queijo colonial do Sudoeste do Paraná, cafés especiais do Norte Pioneiro, morango do Norte Pioneiro, goiaba de Carlópolis, mel de Ortigueira, queijos coloniais de Witmarsum, cachaça e aguardente de Morretes, melado de Capanema, vinhos de Bituruna, mel do Oeste do Paraná, barreado do Litoral do Paraná, bala de banana de Antonina, erva-mate São Matheus, camomila de Mandirituba, uvas finas de Marialva, tortas de Carambeí e café da Serra de Apucarana.

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