Cultura

Uma viagem peripatética: minhas escolhas, não as suas

Vamos caminhar juntos, prezado leitor. Nossa primeira escolha é “seguir os passos” do filósofo Aristóteles, na Grécia Antiga, e assumir o papel de peripatéticos. Calma, já explico melhor e desfaço um possível desentendimento. Isso que parece um belo palavrão nada mais é do que a tradução do vocábulo grego para “ambulante” – adjetivo que não aprecio muito, por ser um conceito vago, ou “itinerante”, significado mais palatável e objetivo, pois remete-nos à ideia de sair de um ponto e alcançar um destino.

Isto posto, o método peripatético, desenvolvido pelo filósofo grego (384-322 a.C.), ampara-se na proposta de o mestre caminhar com os alunos, em diferentes ambientes, para explorar espaços e estimular o pensamento. O objetivo é associar o conhecimento com os sentidos, pois Aristóteles defende a aprendizagem como fruto do mundo sensível, isto é, das experiências vivenciadas empiricamente pelos homens.

Podemos, agora – leitor peripatético -, enfrentar uma jornada comum e dar trela a algumas elucubrações. Tanto você, como eu, já percorremos muitos caminhos, alguns deles em ambiente utilitário e prazeroso; outros, no entanto, deixando marcas e cicatrizes – no corpo ou na alma. Neste ponto da narrativa, podemos dar conta de um dilema mais exigente do que o Ou Isto ou Aquilo, poética reflexão de Cecília Meireles. Refiro-me às escolhas que exigem nossa decisão em encruzilhadas da vida, não em simples dicotomia. “Que caminho devo tomar”, perguntou Alice para o gato acomodado no alto de um galho de árvore. Nesse script, a resposta do gato foi fulminante: “Tudo depende do lugar para onde você quer ir”.

No curso da existência humana, desde o nascimento até a última hora, deparamo-nos com situações de escolha. Algumas, com efeito, passam ao largo de nosso arbítrio. São os pais que chamam para si tais responsabilidades. É o nosso nome, a religião que vamos professar, a escola primária em que vamos estudar, e, às vezes, até o time de futebol para o qual devemos torcer. São coisas que estão associadas aos dois primeiros degraus – fisiológicos e de segurança – da pirâmide de necessidades humanas.

Quando nos deparamos com as necessidades de cunho social – de caráter associativo e afetivo, esse patamar mais alto que confronta o nosso “eu” – a porca torce o rabo, como no dito popular. Pense com seus botões, leitor fiel, sobre algumas situações que o colocaram no paredão. Você não tinha saída, a não ser respirar fundo, mas muito fundo mesmo, e escolher uma das alternativas que o ambiente dispôs. No meu turno, também me deparei com situações desse gênero. Uma delas, por exemplo, ao terminar o curso ginasial, foi tomar a decisão de fazer o vestibular para o curso Técnico Têxtil, ofertado no Rio de Janeiro, e depois de ter morado três anos na casa da avó, em Joinville-SC, e longe dos pais, pois naquela cidade havia oferta do curso ginasial, inexistente, na época, em Matinhos-PR (onde a família morava). Veja aí, leitor da jornada: além dos três anos já citados, somaria mais quatro morando distante dos pais. Esse registro sugere como a vida de cada ser humano é ditada por variáveis controláveis e incontroláveis, que fazem parte do processo decisório que ditam as nossas escolhas.

Fiz estágio na área de tinturaria e acabamento em renomada fábrica em Petrópolis, serra fluminense. Trabalhei dois anos nessa área em uma malharia em Curitiba. Cursando Administração, na FAE (denominação atual), presidi o diretório acadêmico. Fui escolhido por um dos professores para trabalhar como Superintendente Executivo da SPEA – Sociedade Paranaense de Estudos de Administração. Na condição de professor da FAE fui indicado para fazer o mestrado em Administração em Belo Horizonte, na Universidade Federal. Em minha volta a Curitiba, continuei lecionando em aulas de graduação e pós-graduação na FAE. Assumi a Superintendência Executiva do CIEE-PR, Centro de Integração Empresa-Escola, no Paraná. Aposentado, dedico-me às artes plásticas. Estou escrevendo dois livros sobre história familiar. Todas essas atividades têm a ver com a parte mais alta da hierarquia das necessidades humanas, descrita por Abraham Maslow.

As linhas de hoje têm o propósito de destacar o valor de cada indivíduo, absorto com suas preocupações, dilemas e desafios. Pretende, também, fazer uma ode à tolerância e respeito humanos. A raça, a cor da pele, a religião que se professa, o grau de instrução, a posição social relativa, o time para o qual se torce – entre outras variáveis – não devem obscurecer o ponto comum, o mais importante: a nossa humanidade.

Oswaldir Ehlke Scholz


OSWALDIR EHLKE SCHOLZ Mestre em Administração. Atuou como professor universitário na FAE, lecionando a disciplina de Teoria Geral de Administração. Foi Superintendente-Executivo do Centro de Integração Empresa-Escola, no Paraná – CIEE-PR. Escritor. Artista Plástico. Lapeano, 77 anos.

 

Redação JBA Notícias

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